Segunda
lição - O
MÉTODO DO ARREPENDIMENTO
No
período da primavera e do outono da história chinesa, durante
a dinastia Chou (800-400 aC.), existiam
muitos oficiais que tinham a habilidade de prever o futuro de um homem apenas
observando suas palavras
e seu comportamento. Geralmente
o futuro de alguém, seja ele bom ou ruim, inicia-se primeiro em seu coração/mente, e em seguida manifesta-se
em seu comportamento. Aquele que parece amável e sincero e seu comportamento é bom,
receberá grande fortuna. Entretanto, aquele que transparece crueldade
e comporta-se sem considerarão
pelos outros. normalmente propicia o aparecimento
de sofrimentos. Desta
forma, não há mistério nesses acontecimentos. O coração
e a mente do ser humano são conectados com o Céu. Quando se está para ter dificuldades,
pode-se ver que isso se deveu a um comportamento perverso. Se desejarmos ter
felicidades e harmonia, a primeira atitude que devemos tomar é a de
ARREPENDIMENTO, mesmo antes de realizarmos
boas obras.
Há três modos de arrependimento. O primeiro modo é ter consciência ou vergonha. Quando lembramos de nossos ancestrais, os sábios de tempos remotos, notamos que eles foram também pessoas comuns e seus ensinamentos permaneceram válidos por centenas de anos. Somos apenas interessados em prazeres sensuais, fama e riqueza, além de não possuirmos disciplina em nosso comportamento. Cometemos ações desonrosas pelas costas dos outros pensando que ninguém mais pode vê-Ias. Gradualmente nos tornamos animais trajados em roupas humanas. Este é o comportamento mais vergonhoso.
Mencius
disse que o senso de consciência ou de vergonha
é a chave para se tornar um santo.
Aquele que nada sabe sobre isto é então como um
animal. Assim, o primeiro passo no arrependimento é começar
a ter consciência, pois é
isso que distingue os humanos
dos animais.
O
segundo modo é possuir respeito. Isto
diz respeito a Seres Celestiais e seres de outros planos também; não devemos enganá-los.
Mesmo se cometermos pequenos erros, eles saberão. E se cometermos grandes
erros sofreremos as punições proporcionais.
Até quando estamos num quarto escuro nossos pensamentos são conhecidos pelo Céu. Podemos tentar nos esconder,
mas nossos pensamentos não são ocultos e através deles poderemos ser encontrados.
Enquanto ainda nos restar um último suspiro podemos nos arrepender, por mais sérios que tenham
sido nossos erros prévios. Há muitas pessoas que tiveram uma
vida inteira de pecados, mas no momento de desencarnar,
de repente, tornam-se cientes de seus erros, arrependem-se e desencarnam em paz. Há um
ditado budista que diz: “Tão
logo você abandone o facão de açougueiro, já poderá tornar-se um Buda”,
isto é. independentemente
dos erros cometidos, grandes ou pequenos, o principal é ser capaz de mudar e se arrepender.
O
terceiro modo é possuir coragem e determinação. Normalmente, as pessoas não conseguem modificar seus destinos porque não possuem
coragem e determinação para deter
o comportamento errôneo ou
para transformar algo errado. Devemos considerar um pequeno erro como uma
pequena lasca de bambu cravado em nossa pele, assim, devemos removê-la
rapidamente. E se for um grande erro, deve ser considerado como uma picada
de uma cobra venenosa, devendo ser o dedo amputado sem a menor hesitação. Aquele que conseguir seguir
os três modos, alcançará o arrependimento
tão facilmente quanto o gelo derrete na primavera.
Há três níveis para se alcançar o arrependimento. O primeiro é a mudança do próprio comportamento; o segundo é a compreensão através de uma mudança mental; e o terceiro é a mudança do coração/espírito. Cada nível é praticado diferentemente, com diferentes graus de sucesso. Um exemplo da realização do primeiro nível: alguém que matou no dia prévio promete não matar no dia atual; ou, ao se tornar muito nervoso num dia, promete ser calmo no dia seguinte. Esses são exemplos de mudança de comportamento. Entretanto, aqueles que se mantêm unicamente neste nível obrigam-se a seguir um método muito opressivo, sendo muito difícil alcançar verdadeiramente um completo grau de arrependimento.
Um outro caminho mais apropriado de se arrepender é através da compreensão no nível mental. Por exemplo: se quisermos modificar o hábito de matar devemos pensar sobre como todos os seres vivos valorizam suas vidas. Devemos nos perguntar: como poderemos estar em paz ao matarmos esses seres para nos alimentar? E, além disso, pensar na dor dos animais ao serem feridos com água ou óleo fervente penetrando em sua carne e ossos. O segredo da saúde é balancear nossa energia vital interior e não ser dependente de alimentos substanciosos das montanhas ou dos oceanos, pois após a refeição não há diferenças entre os seus nutrientes e os de simples vegetais. Por que deixar seu estômago tornar-se um cemitério de animais e anular suas caridades? Ao considerarmos que todos os seres com sangue e carne têm vida e sentimento, então o fato de nós não permitirmos que eles sejam livres como crianças brincando junto a nós é realmente vergonhoso. Como podemos feri-los e fazer com que nos odeiem? Se pensássemos sobre tudo isso seriamos incapazes de matá-los para nos saciar.
Para modificar o mau temperamento, o mesmo é válido. Se pensássemos como as pessoas são diferentes, como todas possuem pontos fortes e fracos, seríamos mais tolerantes com o próximo. E quando as outras não realizarem ações que consideramos corretas ou se elas agirem contra os Princípios Universais, elas é que estarão erradas. E isso não terá porque nos incomodar, pois não nos diz respeito. Então por que se zangar? Além do mais, se as coisas não andarem como gostaríamos que elas andassem, na grande maioria das vezes é porque ainda não acumulamos méritos suficientes para isso. Assim, se tivermos isto em mente, mesmo ao sermos caluniados, isso será como o fogo queimando no espaço vazio: logo se extinguirá sozinho. Se ao escutarmos xingamentos e tentarmos nos defender, isso será tão trabalhoso quanto um bicho-da-seda construindo seu casulo. De qualquer forma, matar e ter raiva são ações que mais nos ferem do que nos dão paz.
Há
outros erros que podemos modificar de acordo com as mesmas medidas citadas.
Se entendermos as razões por trás
da necessidade de mudança nós não cometeríamos
os mesmos erros novamente. Geralmente, apesar de realizarmos centenas de erros, quando os analisamos
percebemos que todos eles provêm do coração/mente.
Se a mente não gerar pensamentos que são enraizados no egoísmo,
então não cometeremos erros
que surgem da ganância. E se nosso coração tende à
bondade, então naturalmente não teremos pensamentos perversos. Este é o caminho
de arrependimento mais básico: o que ocorre no coração. Todas as falhas vêm da mente, dos pensamentos,
e assim, se quisermos remover radicalmente a causa destas falhas, temos que
agir como se cavássemos em direção à raiz para
cortar a árvore venenosa. Para
mudarmos nossa mente, devemos estar atentos em cada pensamento. Logo que um
mau pensamento é gerado devemos capturá-lo e eliminá-lo.
Este é o melhor método. Todavia, se ainda não formos
capazes de realizar este nível, então devemos fazê-lo
no nível anterior: o da compreensão. E se ainda não pudermos
agir neste nível (o da compreensão),
então devemos fazê-lo no nível do comportamento (da ação).
Porém, o caminho mais eficaz consiste em combinar a vigilância
dos pensamentos com a compreensão. Para aqueles que estiverem determinados
a melhorar podem convidar amigos e parentes a lembrá-los constantemente,
ou então, suplicar aos Seres Iluminados ajuda nesta mudança
para sinceramente se arrepender
dia após dia. Assim, após um certo
tempo começaremos a obter resultados, sentiremos paz e a sabedoria surgirá.
Também é possível sentirmos algumas das seguintes mudanças:
· Mesmo se estivermos em um meio conturbado, não nos aborreceremos mais;
· Ao virmos um inimigo, em vez de ficarmos zangados, ficaremos sinceramente felizes;
· Quando sonharmos que estamos deixando para trás coisas hostis, ou que anjos vêm para nos saudar, ou que estamos voando no céu, isto são apenas indicações de que resolvemos alguns dos nossos erros do passado, e que já realizamos algum progresso. Contudo, isso ainda não é o motivo para ficarmos satisfeitos e complacentes com nós mesmos.
Pessoas
comuns como nós cometem tantos erros quanto
os espinhos existentes em um porco-espinho. Quando
a nossa mente ainda é muito rude, então mesmo falhando, não
enxergamos claramente essas falhas e ainda permanecemos tranqüilos.
As pessoas que acumularam muitos deméritos normalmente apresentam certos sintomas:
· suas mentes são obscurecidas e negligentes;
· preocupam-se quando não há razão alguma para se preocupar;
· se sentem incomodadas quando encontram pessoas sábias e santas;
· ficam infelizes quando escutam a verdade;
·
algumas vezes quando recebem algo, ao invés
de se sentirem gratas, elas ficam insatisfeitas e nervosas;
·
em seus sonhos elas sempre
têm muitos pesadelos e reclamam o tempo todo.
Essas são as características das pessoas que acumularam deméritos e quando elas se manifestam, deveremos pensar com urgência em percorrer os caminhos do arrependimento.